Segunda-feira, Outubro 17, 2005

A gripe das aves e as responsabilidades humanas

Parece querer instalar-se o pânico e, como consequência, massacram-se milhares de animais inocentes e indefesos, quando outras previdências deveriam e poderiam ser tomadas.

Mesmo quando a natureza nos parece querer fazer lembrar que todas as criaturas fazem de igual forma parte dela, a reacção do ser humano é lidar cruelmente com quem considera o bode expiatório.

A indiferença com que se põem dezenas de aves em sacos, com que estas são amontoadas em valas comuns onde, ainda vivas, são colocadas em camadas de 7 e 8 sacos e regadas com combustível por pessoas que, despreocupadamente, caminham sobre elas, deveria ser visto como um alerta.

Começa com o desprezo pelo sofrimento de criaturas com as quais não se sente empatia e termina na indiferença pela dor e padecimentos dos demais humanos. Crueldade é sempre crueldade, independentemente de quem a sofre.

Creo que somos una pieza de un puzzle gigantesco y que destruyendo, gradualmente, las demás piezas llegaremos al momento en que seremos la única de un puzzle por entonces inexistente.

Creo que las demás criaturas son nuestras hermanas y no nuestras siervas, que nuestra inteligencia nos da la responsabilidad de un hermano mayor y no el derecho de un dueño.

Vivemos no melhor dos mundos porque é o mundo que é.

“Mas Pangloss consolou-os afirmando que as coisas não podiam ser de outra maneira.
— Porque — dizia ele — tudo isto é o que deve de ser; porque, se existe um vulcão em Lisboa, não pode estar noutra parte; porque é impossível que as coisas não estejam onde estão; porque tudo vai bem.

Cândido
Voltaire

Quarta-feira, Outubro 12, 2005

Misol-ha


A água e a selva

Terça-feira, Outubro 11, 2005

Independentes

Só não ganhou o Avelino. Aliás, só ele e a Felgueiras é que “não podiam” ganhar. O Isaltino e o Valentim (reparem como os seus nomes próprios, pouco comuns, nos levam a não usarmos o apelido; também pode ser por nos sentirmos próximos dos personagens mas eu do Valentim não quero estar próximo nem que me paguem e do Avelino só se fizessem uma “prisão das celebridades” e me permitissem ir visitá-lo para gozar com ele) tinham toda a legitimidade de se candidatarem. Não foram condenados (como o Avelino já foi) nem fugiram (como a Felgueiras “presumivelmente” fez).

São arguidos em processos cujo julgamento ainda não se iniciou. Se há presunção de inocência, e se se enche a boca com a separação de poderes, querer inibi-los de participarem na política activa é hipócrita.

Votei em branco mas não desgostei que tivesse ganho o Isaltino. Se ele for condenado é-lhe retirado o cargo. E pronto.

O José “Esquisofrénico” de Faro perdeu. A sociologia portuguesa tem menos um “caso de estudo” mas estou feliz com essa perda para a depauperada investigação portuguesa. Espero que ela, a investigação portuguesa, não me leve a mal.

O frango e o tio patinhas

Ricardo falhou mais uma vez (na verdade mais duas vezes). Não é de agora, Liechenstein (fora), Udinese, Belenenses, CSKA Moscovo, Benfica, Grécia e muitos outros que não vi por não estar cá. Não podemos falar de uma ou outra falha mas de uma coerência no erro. O que eu acho fenomenal é como é que há pessoas que continuam a dizer que “no pasa nada”, que são erros normais num guarda-redes, que é alvo de uma perseguição, etc e tal. Mas está tudo maluco?! Por que razão continuam a insistir que seja o titular da selecção e que tudo não passa de uma cabala contra ele?

Ricardo tem de parar - quem sabe mudar de ares (embora eu gostasse muito que ele ficasse no Sporting e a jogar ;-) -, procurar alguém que o ajude mentalmente e treinar as saídas (o Moreira fê-lo).

Já me disseram que o Scolari de certeza que não é estúpido e que quer ganhar, pelo que se achasse que o Ricardo não lhe dava segurança não o punha a jogar. Em princípio sim, mas não nos podemos esquecer que estamos perante alguém muito teimoso, que está disposto a ir até ao fim com o Ricardo para provar que pode ganhar com ele, mesmo que no fim o faça perder (como, aliás, já aconteceu contra a Grécia).

O Scolari também é outro...é um motivador fantástico e alguém que sabe preparar mentalmente muito bem os seus jogadores mas que tacticamente parece ter debilidades. Tem ao seu dispor a melhor selecção portuguesa da história, era só o que faltava que não conseguisse qualificar a selecção antes do último jogo; ainda por cima num grupo tão fraco.

Agora faz de amuado perante um comentário perfeitamente normal de Madail. Está-se mesmo a ver...com as propostas fabulosas do Real Madrid, entre outros, a darem-lhe voltas à cabeça qualquer desculpa é boa para se por na alheta. Mas ele julga que somos parvos...?

Os “nossos” comentadores da bola

No Ruanda – Angola as coisas não corriam bem; os jogadores de Angola pareciam oprimidos com o peso da responsabilidade (e o esférico continuava a ressaltar no relvado (!) como se fosse uma bola de basquetebol) mas esforçavam-se, com o desejo de não quererem deixar de ficar na história. O “nosso” comentador (do qual não me lembro o nome) dizia para o Hélder, o ex-jogador-que-ainda-acredita-que-é-jogador: «Angola perdeu uma oportunidade de entrar na história. É uma pena que vá morrer na praia». Nem de propósito; 30s depois Akwá cabeceia como deus manda e o “nosso” comentador, coerentemente, diz: «ó Hélder, estava-se mesmo a ver que Angola ia marcar».

Não há pachorra.

Sexta-feira, Outubro 07, 2005

Os arredores de San Cristobal de las Casas


Começámos por Zinacantan (sitio dos morcegos) e depois fomos a San Juan Chamula (conhecido por alguns como São João dos Chanatos).

Zinacantan é uma aldeia acolhedora no seio de pequenos montes boscosos. Bem, pequenos, pequenos não serão uma vez que a própria aldeia já está a 2300m de altitude. Como tem andado a chover não foi de estranhar que estes bosques estivessem semi-cobertos por uma névoa que lhe dava um quê de mágico. As cores das vestimentas dos indígenas, os altares floridos das igrejas, as cruzes envoltas por vegetação em forma de uma oferenda, tudo isso nos dá a ideia de estarmos perante uma forma diferente de ver as coisas que observamos quotidianamente (não é melhor nem pior, é diferente). Contudo isso ainda não era nada...

Em Janeiro quando cá estive com a Teresa não entrámos na igreja de San Juan Chamula e foi um erro. Foi das coisas mais impactantes, em termos de religiosidade, que já vi pessoalmente e a cores (ainda que fuscas) .

Numa igreja com uma nave de cerca de 60m por 15m, escura, em que os olhos se habituam lentamente a uma obscuridade não exagerada (o suficiente para criar alguma intimidade num sitio que não a deveria ter pela quantidade de pessoas que circulam pelo espaço), encontravam-se cerca de 150 000 velas acesas. Esta era toda a luz que existia num espaço com poucas janelas em que mal entrava a luminosidade de dias muito chuvosos.

Ao longo das paredes, em pequenos altares inseridos em caixas de madeira e vidro, dezenas de imagens de santos eram adoradas, no momento ou num passado recente, como atestavam as velas que diante de si ainda ardiam. As pessoas tanto se viravam para o altar principal como para o santo da sua devoção e, apesar dos turistas, pareciam alheios ao mundo exterior. O seu Deus, o seu mundo, estava naquele espaço, sombrio mas ao mesmo tempo mágico e cheio de espiritualidade.
Ao longo do chão dezenas de indígenas, espalhados por toda o espaço da igreja, ajoelhados ou sentados, com as suas várias velas rezavam em ladainhas cantadas em Tzotzil ou Tzeltal, usando nos seus pequenos rituais bebidas como a coca-cola. O chão pejado de caruma dava a sensação de ir provocar a qualquer momento um incêndio de romanas proporções.
Neste mundo o catolicismo é intenso mas, ao mesmo tempo, claramente impregnado de vivências e costumes de origem pré-hispânicas.

As fotografias no interior estão proibidas. Ainda no verão passado um turista italiano foi espancado, viu a sua máquina fotográfica partida em mil pedaços, foi preso e depois obrigado a pagar uma multa. Ainda assim há quem arrisque

Na última vez que estive na aldeia quase que houve outro linchamento. A história é mais ou menos assim. Um rapaz foi acusado de tentar violar uma rapariga (era palavra contra palavra), a família da rapariga exigiu ao pai dele €20.000, este disse que só tinha €1.000. Resultado, o senhor teve de estar preso durante dias para evitar ser morto.

Algo que, obviamente, não desapareceu desde Janeiro é a pobreza e a miséria humana muitas vezes a ela associada. Vários terão o seu quinhão de responsabilidade e os indígenas não são apenas as vitimas do costume, está na altura de deixarmos cair um pouco essa vitimização de cariz paternalista e até inconscientemente racista e exigir a todos um esforço para modificar o seu quotidiano.

Isso não implica que o estado de Chiapas não seja o estado mexicano com menos casas ligadas à electricidade e, ao mesmo tempo, aquele que produz 60% de toda a energia eléctrica do país. Isso também tem de acabar mas isso são contas de outro rosário...

O Bruma é o jaguar de estimação da Teresa que nos acompanhou boa parte da viagem. Consta-me que já devorou metade dos outros amigos da Teresa mas que ela tem uma especial predilecção por ele. Também é melhor que tenha, nem todos os grandes gatos têm o feitio do Hobbes...

Imagens dos Altos de Chiapas


A Igreja de San Juan Chamula que não deixa entrever o que se encontra dentro















A tecedeira

O Bruma

As fraudes morais

Infelizmente, creio que na segunda-feira não terá sustentabilidade a célebre frase: "são todos iguais."

Será o eleitorado que será todo igual, por votar na República das Bananas ou por simplesmente ficar em casa...