Volta então o outro senhor.
“Que tem 81 anos” dizem uns, que essa atitude revela uma “política portuguesa escassa de novos valores”, agregam uns outros quantos. Serão estas boas razões para contestar tal candidatura? Será que uma pessoa válida, inteligente e sem problemas de saúde de maior não pode ser útil ao seu país? A idade é (quase) irrelevante. “Não há ninguém tão velho que não possa viver mais um ano nem ninguém tão jovem que não possa morrer amanhã”.
Não andamos a dizer que a qualidade de vida dos idosos é cada vez melhor, que a segurança social está cada vez pior e que uma das maneiras de contrabalançar essa tendência é adiar a idade de reforma? Que necessitamos de mais pessoas a trabalhar para pagar as reformas? Ora, visto desta forma, Mário Soares estaria a dar um exemplo de patriotismo e responsabilidade. Estaria. Estaria, se esta sua decisão não fosse movida apenas pelo seu desmesurado ego, pela sua vontade de voltar a ter o poder de vetar, de aparecer, de ser o que sempre foi, um animal político, com instinto e argúcia inigualáveis mas com uma profunda incapacidade de cumprir cargos políticos de forma responsável e eficiente.
Dizem que Cavaco Silva é arrogante, quiçá o seja; mas é curioso que algo que faz parte, de forma tão entranhada, da essência de Mário Soares (a sua soberbia, o seu menosprezo pelos que não considera à sua altura − quase todos) nunca seja referido. Cavaco tem aquela arrogância de catedrático, de pessoa que crê saber o que é melhor para os demais; mas porque pensou, porque estudou, porque se preocupou (mesmo que esteja errado).
Mário Soares têm uma arrogância que se baseia no simples facto de ser “o” Mário Soares. Não me interpretem mal, bem sabemos que ele tem uma cota de responsabilidade não despicienda no impedir da entrada de Portugal num regime estalinista-cunhalista, o qual, seguramente, haveria desembocado numa guerra civil. Contudo, basta ver a forma como há uns anos tratou um agente da GNR em público; ou como, mais recentemente, entrou a matar no Parlamento Europeu, como se “fosse tudo dele”, como se os deputados europeus tivessem de lhe prestar vassalagem; ou ainda como se referiu à depois presidente do Parlamento. Isto bastava, entre muitos outros exemplos, para constatar a jactância e a presunção da sua pessoa, que entram pelos olhos adentro. Considera-se acima dos restantes mortais simplesmente porque é ele próprio. É isso que se procura num presidente? Para um cargo que exige ponderação, equilíbrio e sentido de justiça?
Aliás, basta ver que solidariedade, lealdade, amizade ou a singela preocupação pelos demais é algo que nunca ocupou muito o dr. Soares. É evidente que a sua candidatura assenta sobretudo (inteiramente?) no seu “umbigocentrismo” e não numa preocupação pelo país. Possivelmente, o seu principal objectivo é tomar o lugar de Lula no panorama político internacional. Se ele fez o que fez ao Zenha, e agora ao Alegre, imaginem qual será a sua real preocupação pelo cidadãos...
E, já agora, se o Soares é candidato fará sentido o BE candidatar alguém? (o Pureza seria interessante) Afinal de contas, o Soares de hoje segue o pensamento político bloquista e não o socialista. Diria mesmo que o Cavaco é muito mais socialista que o Soares.
Enfim, se chegarmos a uma segunda volta (como parece provável) teremos de decidir entre uma pessoa que crê ter muito que dar ao país e outra que apenas vê em Portugal e nos portugueses devedores à sua real pessoa, devedores eternos.
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