Sexta-feira, Outubro 29, 2004

Surrealismo


O Sonho

Às vezes não sei o que me parece mais surrealista, se a realidade ou a pintura de Dalí.

Quinta-feira, Outubro 28, 2004

O tempo em Mário de Sá-Carneiro

Para mim é sempre ontem,
Não tenho amanhã nem hoje:
O tempo que aos outros foge,
Cai sobre mim feito ontem.

(excerto do poema Dispersão)

Segunda-feira, Outubro 25, 2004

Quem tem medo do Velho do restelo?

Será que entendi bem? Li no Expresso deste fim-de-semana. Os episódios relativos ao Velho do Restelo (Canto IV) e à Ilha dos Amores (Canto X) vão desaparecer do estudo dos Lusíadas nos programas do 9º ano. Percebo que os programas tenham que ser renovados, que outros autores devam ser abordados e estudados, mas porquê os Lusíadas? Dois episódios que fazem parte do nosso imaginário desaparecem assim dos programas lectivos. O que desaparecerá em seguida? Ou pensar assim é pensar como o Velho do Restelo? Pensemos, pelo menos!

«Mas um velho, d' aspeito venerando,
Que ficava nas praias, entre a gente,
Postos em nós os olhos, meneando
Três vezes a cabeça, descontente,
A voz pesada um pouco alevantando,
Que nós no mar ouvimos claramente,
Cum saber só d' experiências feito,
Tais palavras tirou do experto peito:

– «Ó glória de mandar, ó vã cobiça
Desta vaidade a quem chamamos Fama!
Ó fraudulento gosto, que se atiça
Cũa aura popular, que honra se chama!
Que castigo tamanho e que justiça
Fazes no peito vão que muito te ama!
Que mortes, que perigos, que tormentas,
Que crueldades neles experimentas!

Domingo, Outubro 24, 2004

Investimento na formação em novas tecnologias

UMA IDEIA BOA. A criação da disciplina de Tecnologias de Informação e Comunicação nos currículos escolares é uma excelente iniciativa. Efectivamente, causa-me alguma perplexidade o facto de muitos estudantes universitários, supostamente já de uma geração familiarizada com estes meios, revelarem, com frequência, dificuldades e até desconhecimento no seu domínio. Hoje devia ser normal um jovem universitário saber criar e usar uma base de dados adaptada às suas necessidades, utilizar programas como o Powerpoint e o Excel. Paralelamente, deveria ser normal o estudante, na era da internet, estar apto a fazer pesquisas dirigidas, usando os motores de busca. A iniciativa é por isso de louvar. O problema é, como habitualmente, a concretização das boas ideias. Num ano em que tudo correu mal na colocação de professores, estão ainda sem professores de TIC muitas escolas neste país.
UMA MÁ IDEIA. Haverá professores a mais no sistema ou haverá má distribuição dos docentes? A hipótese de os professores com horário zero irem assessorar os juízes é uma forma de desviar as atenções da verdadeira questão. Enquanto houver nas escolas turmas com quase trinta alunos, podemos dizer que continuam a faltar professores. Enquanto continuarmos a considerar a educação como uma despesa e não como um investimento, não me deixarei convencer pelos repetidos discursos apaixonados pela ciência e pela educação.

Sábado, Outubro 23, 2004

A coerência de ser incoerente

Nem sempre sou igual no que digo e escrevo.
Mudo, mas não mudo muito.
A cor das flores não é a mesma ao sol
De que quando uma nuvem passa
Ou quando entra a noite
E as flores são cor da sombra.

(Alberto Caeiro)

Admiro a coerência que há em se admitir a incoerência.

Sexta-feira, Outubro 22, 2004

As novas fronteiras da Europa

Há uns dias, falávamos da Turquia e da sua futura entrada na U.E. Bem a propósito, realiza-se nos dias 26 e 27 de Outubro, na Fund. C. Gulbenkian, um ciclo de conferências sobre «As novas fronteiras da Europa». Entre elas, destaca-se a conferência de Ragip Duran: «Est-ce que l'Islam est compatible avec l'Union Européenne: le cas récent de la Turquie». A conferência terá lugar no dia 26, de manhã. Espero assistir.

Quarta-feira, Outubro 20, 2004

Encontro sobre o tempo

«Pensa muitas vezes na rapidez da passagem e do desaparecimento das coisas que existem e que acontecem. A susbstância é como um rio em incessante fluir; as realizações estão em contínuas mudanças; as causas, em infinitas alterações e quase nada pára, nem o presente, tão próximo, nem o abismo infinito do passado e do futuro em que tudo desaparece».
(Marco Aurélio, Meditações)


Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto,
Que não se muda já como soía.

(Luís de Camões)

Terça-feira, Outubro 19, 2004

Hoje, o dia lembrou-me Ruy Belo

Mas que sei eu

Mas que sei eu das folhas no outono
ao vento vorazmente arremessadas
quando eu passo pelas madrugadas
tal como passaria qualquer dono?

Eu sei que é vão o vento e lento o sono
e acabam coisas mal principiadas
no ínvio precipício das geadas
que pressinto no meu fundo abandono

Nenhum súbito súbdito lamenta
a dor de assim passar que me atormenta
e me ergue no ar como outra folha

qualquer. Mas eu que sei destas manhãs?
As coisas vêm vão e são tão vãs
como este olhar que ignoro que me olha.

(Ruy Belo)

Segunda-feira, Outubro 18, 2004

A História do Futuro

O Padre António Vieira, um príncipe da língua portuguesa, escreveu a História do Futuro e faz aí uma série de reflexões sobre o tempo e sobre a história. Diz o autor:
«O tempo, como o mundo, tem dois hemisférios: um superior e visível, que é o passado, outro inferior e invisível, que é o futuro. No meio de um e outro hemisfério ficam os horizontes do tempo, que são estes instantes do presente que imos vivendo, onde o passado se termina e o futuro começa. Desde este ponto toma seu princípio a nossa História, a qual nos irá descobrindo as novas regiões e os novos habitadores deste segundo hemisfério do tempo, que são os antípodas do passado. Oh que coisas grandes e raras haverá que ver neste novo descobrimento!»
É da natureza humana essa obsessão pelo porvir. António Vieira diz que «O homem, filho do tempo, reparte com o mesmo tempo, ou o seu saber ou a sua ignorância; do presente sabe pouco, do passado menos e do futuro nada.»

Domingo, Outubro 17, 2004

Dia de homenagem a António Ramos Rosa

Há poemas que são simplesmente belos mas há também poesia que nos leva a pensar demoradamente sobre as coisas. A poesia é uma outra forma de filosofia, o que me faz recordar Alberto Caeiro. Este poema de Ramos Rosa lembra-me a filosofia da linguagem. Diz o poeta: «Eu sou agora o que a linguagem mostra». Não era Wittgenstein que dizia «Os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo»?

O horizonte das palavras

Sem direcção, sem caminho
escrevo esta página que não tem alma dentro.
Se conseguir chegar à substância de um muro
acenderei a lâmpada de pedra na montanha.
E sem apoio penetro nos interstícios fugidios
ou enuncio as simples reiterações da terra,
as palavras que se tornam calhaus na boca ou nos meus passos.
Tentarei construir a consistência num adágio
de sílabas silvestres, de ribeiros vibrantes.
E na substância entra a mão, o balbucio branco
de uma língua espessa, a madeira, as abelhas,
um organismo verde aberto sobre o mar,
as teclas do verão, as indústrias da água.
Eu sou agora o que a linguagem mostra
nas suas verdes estratégias, nas suas pontes
de música visual: o equilíbrio preenche os buracos
com arcos, colinas e com árvores.
Um alvor nasceu nas palavras e nos montes.
O impronunciável é o horizonte do que é dito.

(António Ramos Rosa, ACORDES, QUETZAL EDITORES, 1990, 2ª EDIÇÃO, P. 81)

Sábado, Outubro 16, 2004

Mário de Sá-Carneiro por Almada Negreiros



A alteridade em Mário de Sá-Carneiro

Eu não sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o Outro.

(Mário de Sá-Carneiro)

Este curto poema de Mário de Sá-Carneiro levou-me a pensar sobre o que nos distingue hoje dos outros e se estamos dispostos a preservar essas diferenças, a aceitá-las e a encará-las como uma aventura. Provavelmente nada disto atravessou o espírito do poeta mas a arte tem essa particularidade, a de depertar nos outros sentimentos, pensamentos tão diversos... O autor não é o detentor do monopólio do significado; este constrói-se também na sua recepção.

Quarta-feira, Outubro 13, 2004

O sono...

O sono

Se o sono fosse (como dizem) uma
Pura trégua ou repouso para a mente,
Porque é que, se te acordam bruscamente,
Sentes que te roubaram a fortuna?
Porque é tão triste madrugar? A hora
Despoja-nos de um dom inconcebível,
Tão íntimo que só é traduzível
Numa modorra que a vigília doira
Com sonhos, que bem podem ser parciais
Reflexos dos tesouros que há na sombra
De um orbe intemporal que não tem nome
E que o dia deforma em seus cristais.
Quem serás esta noite no obscuro
Sono, do outro lado do seu muro?

Jorge Luís Borges

Terça-feira, Outubro 12, 2004

Cultura - um conceito de geometria variável

Fernando Gil escreveu no Expresso de 10-06-04 um artigo intitulado «A Europa e o diálogo entre culturas». Trata-se de uma reflexão sobre a Europa e sobre a sua relação com outras culturas. É evidentemente uma análise com muita actualidade e onde Fernando Gil define o conceito de cultura como «um conceito de geometria variável», dependente do tempo e do contexto histórico. A primeira parte deste texto é motivo suficiente para reflectirmos:
«As culturas não são naturalmente dialogantes e é natural que assim seja. Elas constroem-se através de razões de ser e de modos de viver comuns, que lhes são internos: práticas e valores, interesses e paixões, deuses e projectos, em que os seus membros se reconhecem. Estas identidades instituem, e são ao mesmo tempo mantidas e reforçadas, por tradições que desenham moldes de aprendizagem e integração. Identidades e tradições asseguram a coesão de cada cultura. Trata-se sempre de certos modos de viver, e não de outros, de determinados moldes de socialização, apenas: o outro fica fora da cultura.»
Identifico-me com esta visão sobre a cultura. De facto, são as identidades, as memórias, as tradições que urdem a tessitura social e cultural de um país. A globalização, a televisão, a Internet colocam-nos perante a subversão desta lógica de que fala Fernando Gil. É uma mudança de paradigma. Não sei se é bom se é mau, mas é aquilo a que provavelmente assistimos no nosso tempo. O diálogo inter-cultural significa a assunção da diferença e a convivência com ela. O outro é, por outro lado, essencial à consciência do eu e de nós. Se as identidades e as diferenças tendem a esbater-se, estaremos a caminhar para uma monocultura, no futuro uma cultura à escala planetária?

Segunda-feira, Outubro 11, 2004

A criação

Exame de Consciência

Por tudo passa o artista:
Primeiro, pela alegria
De se julgar criador
No seio da natureza;
Depois, por esta tristeza
De ver morrer o que fez,
Sem ter nas mãos a certeza
De erguer o sonho outra vez.

Miguel Torga

Domingo, Outubro 10, 2004

Morreu Derrida...

Morreu Jacques Derrida, o filósofo francês de origem argelina, nascido em 1930. Entre 1960 e 1964, ensinou na Sorbonne e, a partir dos inícios da década de setenta, dividiu-se entre a França e os Estados Unidos, tornando-se um filósofo muito popular entre os americanos. Um dos aspectos fundamentais da sua obra consistiu na aplicação da teoria do desconstrucionismo à análise de texto. O impacto e a influência desta ideia nas ciências sociais e humanas foram enormes. Ao contrário do que postulava a visão convencional, Derrida sustentava que a linguagem alterava as ideias que veiculava e que o autor do texto não era a origem do significado. Para o filósofo, o texto não reflectia um significado fechado e inalterável. O desconstrucionismo revela as várias camadas de significado constitutivas do texto. Esta ideia foi extraordinariamente produtiva na hermenêutica em geral. É claro que, levada a um extremo, conduziu a um certo cepticismo relativamente à análise de texto e à capacidade de interpretação e de objectivação do seu significado. Foi uma das leituras mais marcantes e mais influentes sobre a forma como eu vejo o texto enquanto portador de significado.

Sábado, Outubro 09, 2004

Um novo paradigma para a U.E.

Ainda a propósito da adesão da Turquia… A U.E. tem estudado o seu impacto, considerando as diversas consequências do processo (http://europa.eu.int/comm/enlargement/report_2004/pdf/issues_paper_en.pdf). No plano económico, a entrada da Turquia terá, no imediato, um impacto limitado, dado o grau de desenvolvimento actual da sua economia. Todavia, devemos levar em conta o facto de se tratar de um mercado com cerca de oitenta milhões de indivíduos. Por outro lado, sendo uma economia tão débil, haverá necessidade de apoios financeiros em massa, o que conduzirá ao desvio de fundos de outras regiões da Europa. Na realidade, com a entrada da Turquia, algumas das regiões europeias que hoje beneficiam dos fundos estruturais passarão a ser consideradas regiões desenvolvidas e ricas.
No plano político, colocar-se-ão novos desafios. As novas fronteiras da Europa política passarão pela Síria e pelo Iraque, por exemplo, com os quais a Turquia tem relações complexas. Isto implicará, necessariamente, a redefinição estratégica da política externa europeia e sabemos como este é um dos calcanhares de Aquiles da União Europeia.
Li hoje o artigo de opinião de Álvaro de Vasconcelos no Expresso, intitulado, muito a propósito, «Europa asiática». Álvaro de Vasconcelos afirma que «a adesão da Turquia seria um acontecimento refundador da União, depois de anos de nevoeiro economicista (…) mais claramente a União passa a ser um projecto para a ordem mundial, não só para os cidadãos e Estados da Europa». De facto, em vez de trilhar exclusivamente a senda de uma comunidade do carvão e do aço cada vez mais poderosa, com tímida iniciativa política, a Europa empenha-se assim forçosamente em novas ambições políticas, desenhando para si um novo papel no mundo.
Como diz ainda Álvaro de Vasconcelos, a questão da Turquia, mesmo que indirectamente, esteve presente na discussão do preâmbulo da Constituição Europeia (http://ue.eu.int/igcpdf/pt/04/cg00/cg00087.pt04.pdf). As referências à matriz e ao legado judaico-cristão da Europa, ainda que constituindo apenas expressão das suas origens e das suas raízes, condicionavam a redefinição do modelo de União Europeia e concretamente a entrada da Turquia, colocando algumas objecções de carácter ideológico. Na verdade, a questão não se esgota no problema concreto do alargamento e da adesão da Turquia. O que está em causa é um debate em torno dos objectivos e das ambições da Europa. O que se deve discutir é a mudança de paradigma, a qual implica a refundação do projecto europeu.
Ultrapassadas as dificuldades inerentes ao processo de adesão, designadamente a aceitação de alguns princípios e valores considerados sagrados na carta constitucional que deverá unir todos os europeus, a entrada da Turquia, que se tem esforçado por transformar a sua realidade política, económica e social, representará uma nova oportunidade mas também um enorme desafio para a U.E. e para o seu projecto.


Quinta-feira, Outubro 07, 2004

As nuvens são sombrias...

As nuvens são sombrias
Mas, nos lados do sul,
Um bocado do céu
É tristemente azul.

Assim, no pensamento,
Sem haver solução,
Há um bocado que lembra
Que existe o coração.

E esse bocado é que é
A verdade que está
A ser beleza eterna
Para além do que há.

Fernando Pessoa, 5-4-1931


É verdade que o céu está povoado de nuvens sombrias... mas há sempre um pedaço de céu azul que nos impele, que nos motiva. Despertei optimista, hoje.

Terça-feira, Outubro 05, 2004

A adesão da Turquia à U.E.

A adesão da Turquia à U.E. continua a ser uma dor de cabeça para a Europa. Nesta entrevista de Ahmet Davutoglu, conselheiro do Primeiro-Ministro turco, são bem evidentes os principais problemas e as dúvidas que se colocam a propósito da sua entrada. A França fez saber recentemente que apoiava a adesão da Turquia mas que pretendia submeter a questão a referendo. Começa-se a falar em prazos tão distantes como 2015 e 2020. A verdade é que para além das alterações constitucionais a que os turcos tiveram que proceder com vista à abertura de negociações, está ainda um longo caminho por percorrer, o qual consiste na assimilação dessas modificações legislativas e na sua implementação prática. Ultrapassadas essas questões, a Europa deverá acolher a Turquia de pleno direito e transformar-se numa casa verdadeiramente multicultural, multi-étnica e multi-religiosa, correndo o risco, senão o fizer, de se transformar numa fortaleza, acantonando-se perigosamente.

EXP. — Há quem diga que, quando a Turquia for membro da UE, mudará a sua natureza; que vai ser preciso decidir onde termina a Europa — é um argumento geográfico. E há ainda argumentos culturais, religiosos e demográficos.
A.D. — Argumento geográfico: a Turquia possui uma terra europeia. Onde termina a Europa? Em Istambul. Essa parte da Turquia é maior do que alguns Estados-membros. Se o argumento é geográfico, como explica Chipre? Cultura: somos mais próximos dos gregos do que estes dos noruegueses, por exemplo. Se ignorarmos os arquivos turcos otomanos, não poderemos escrever a história da Europa.Temos uma história comum.
Religião: somos muçulmanos e continuaremos a sê-lo. Mas ao longo da História, as diferenças entre a Igreja Ortodoxa, Católica ou Protestante eram menores do que as diferenças entre muçulmanos e cristãos? Somos todos de tradição abraâmica. Demografia: segundo as últimas estimativas, daqui a dez anos a UE, com a Turquia incluída, terá cerca de 6oo milhões de habitantes. Desses, 80 milhões serão turcos — 10%. Quem pensa que uma minoria de 10% pode alterar a natureza da Europa não está disposto a ser multicultural. Por que é que 10% metem tanto medo?
[Expresso - 2 de Outubro de 2004]