por-estas-e-por-outras
Sexta-feira, Outubro 29, 2004
Quinta-feira, Outubro 28, 2004
O tempo em Mário de Sá-Carneiro
Para mim é sempre ontem,
Não tenho amanhã nem hoje:
O tempo que aos outros foge,
Cai sobre mim feito ontem.
(excerto do poema Dispersão)
Segunda-feira, Outubro 25, 2004
Quem tem medo do Velho do restelo?
«Mas um velho, d' aspeito venerando,
Que ficava nas praias, entre a gente,
Postos em nós os olhos, meneando
Três vezes a cabeça, descontente,
A voz pesada um pouco alevantando,
Que nós no mar ouvimos claramente,
Cum saber só d' experiências feito,
Tais palavras tirou do experto peito:
– «Ó glória de mandar, ó vã cobiça
Desta vaidade a quem chamamos Fama!
Ó fraudulento gosto, que se atiça
Cũa aura popular, que honra se chama!
Que castigo tamanho e que justiça
Fazes no peito vão que muito te ama!
Que mortes, que perigos, que tormentas,
Que crueldades neles experimentas!
Domingo, Outubro 24, 2004
Investimento na formação em novas tecnologias
Sábado, Outubro 23, 2004
A coerência de ser incoerente
Nem sempre sou igual no que digo e escrevo.
Mudo, mas não mudo muito.
A cor das flores não é a mesma ao sol
De que quando uma nuvem passa
Ou quando entra a noite
E as flores são cor da sombra.
(Alberto Caeiro)
Admiro a coerência que há em se admitir a incoerência.
Sexta-feira, Outubro 22, 2004
As novas fronteiras da Europa
Quarta-feira, Outubro 20, 2004
Encontro sobre o tempo
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.
Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.
O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.
E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto,
Que não se muda já como soía.
(Luís de Camões)
Terça-feira, Outubro 19, 2004
Hoje, o dia lembrou-me Ruy Belo
Mas que sei eu
Mas que sei eu das folhas no outono
ao vento vorazmente arremessadas
quando eu passo pelas madrugadas
tal como passaria qualquer dono?
Eu sei que é vão o vento e lento o sono
e acabam coisas mal principiadas
no ínvio precipício das geadas
que pressinto no meu fundo abandono
Nenhum súbito súbdito lamenta
a dor de assim passar que me atormenta
e me ergue no ar como outra folha
qualquer. Mas eu que sei destas manhãs?
As coisas vêm vão e são tão vãs
como este olhar que ignoro que me olha.
(Ruy Belo)
Segunda-feira, Outubro 18, 2004
A História do Futuro
Domingo, Outubro 17, 2004
Dia de homenagem a António Ramos Rosa
O horizonte das palavras
Sem direcção, sem caminho
escrevo esta página que não tem alma dentro.
Se conseguir chegar à substância de um muro
acenderei a lâmpada de pedra na montanha.
E sem apoio penetro nos interstícios fugidios
ou enuncio as simples reiterações da terra,
as palavras que se tornam calhaus na boca ou nos meus passos.
Tentarei construir a consistência num adágio
de sílabas silvestres, de ribeiros vibrantes.
E na substância entra a mão, o balbucio branco
de uma língua espessa, a madeira, as abelhas,
um organismo verde aberto sobre o mar,
as teclas do verão, as indústrias da água.
Eu sou agora o que a linguagem mostra
nas suas verdes estratégias, nas suas pontes
de música visual: o equilíbrio preenche os buracos
com arcos, colinas e com árvores.
Um alvor nasceu nas palavras e nos montes.
O impronunciável é o horizonte do que é dito.
(António Ramos Rosa, ACORDES, QUETZAL EDITORES, 1990, 2ª EDIÇÃO, P. 81)
Sábado, Outubro 16, 2004
A alteridade em Mário de Sá-Carneiro
Eu não sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o Outro.
(Mário de Sá-Carneiro)
Quarta-feira, Outubro 13, 2004
O sono...
O sono
Se o sono fosse (como dizem) uma
Pura trégua ou repouso para a mente,
Porque é que, se te acordam bruscamente,
Sentes que te roubaram a fortuna?
Porque é tão triste madrugar? A hora
Despoja-nos de um dom inconcebível,
Tão íntimo que só é traduzível
Numa modorra que a vigília doira
Com sonhos, que bem podem ser parciais
Reflexos dos tesouros que há na sombra
De um orbe intemporal que não tem nome
E que o dia deforma em seus cristais.
Quem serás esta noite no obscuro
Sono, do outro lado do seu muro?
Jorge Luís Borges
Terça-feira, Outubro 12, 2004
Cultura - um conceito de geometria variável
«As culturas não são naturalmente dialogantes e é natural que assim seja. Elas constroem-se através de razões de ser e de modos de viver comuns, que lhes são internos: práticas e valores, interesses e paixões, deuses e projectos, em que os seus membros se reconhecem. Estas identidades instituem, e são ao mesmo tempo mantidas e reforçadas, por tradições que desenham moldes de aprendizagem e integração. Identidades e tradições asseguram a coesão de cada cultura. Trata-se sempre de certos modos de viver, e não de outros, de determinados moldes de socialização, apenas: o outro fica fora da cultura.»
Identifico-me com esta visão sobre a cultura. De facto, são as identidades, as memórias, as tradições que urdem a tessitura social e cultural de um país. A globalização, a televisão, a Internet colocam-nos perante a subversão desta lógica de que fala Fernando Gil. É uma mudança de paradigma. Não sei se é bom se é mau, mas é aquilo a que provavelmente assistimos no nosso tempo. O diálogo inter-cultural significa a assunção da diferença e a convivência com ela. O outro é, por outro lado, essencial à consciência do eu e de nós. Se as identidades e as diferenças tendem a esbater-se, estaremos a caminhar para uma monocultura, no futuro uma cultura à escala planetária?
Segunda-feira, Outubro 11, 2004
A criação
Exame de Consciência
Por tudo passa o artista:
Primeiro, pela alegria
De se julgar criador
No seio da natureza;
Depois, por esta tristeza
De ver morrer o que fez,
Sem ter nas mãos a certeza
De erguer o sonho outra vez.
Miguel Torga
Domingo, Outubro 10, 2004
Morreu Derrida...
-
Sugiro a leitura de um texto de Derrida sobre o perdão: http://www.hydra.umn.edu/derrida/siecle.html
Sábado, Outubro 09, 2004
Um novo paradigma para a U.E.
No plano político, colocar-se-ão novos desafios. As novas fronteiras da Europa política passarão pela Síria e pelo Iraque, por exemplo, com os quais a Turquia tem relações complexas. Isto implicará, necessariamente, a redefinição estratégica da política externa europeia e sabemos como este é um dos calcanhares de Aquiles da União Europeia.
Li hoje o artigo de opinião de Álvaro de Vasconcelos no Expresso, intitulado, muito a propósito, «Europa asiática». Álvaro de Vasconcelos afirma que «a adesão da Turquia seria um acontecimento refundador da União, depois de anos de nevoeiro economicista (…) mais claramente a União passa a ser um projecto para a ordem mundial, não só para os cidadãos e Estados da Europa». De facto, em vez de trilhar exclusivamente a senda de uma comunidade do carvão e do aço cada vez mais poderosa, com tímida iniciativa política, a Europa empenha-se assim forçosamente em novas ambições políticas, desenhando para si um novo papel no mundo.
Como diz ainda Álvaro de Vasconcelos, a questão da Turquia, mesmo que indirectamente, esteve presente na discussão do preâmbulo da Constituição Europeia (http://ue.eu.int/igcpdf/pt/04/cg00/cg00087.pt04.pdf). As referências à matriz e ao legado judaico-cristão da Europa, ainda que constituindo apenas expressão das suas origens e das suas raízes, condicionavam a redefinição do modelo de União Europeia e concretamente a entrada da Turquia, colocando algumas objecções de carácter ideológico. Na verdade, a questão não se esgota no problema concreto do alargamento e da adesão da Turquia. O que está em causa é um debate em torno dos objectivos e das ambições da Europa. O que se deve discutir é a mudança de paradigma, a qual implica a refundação do projecto europeu.
Ultrapassadas as dificuldades inerentes ao processo de adesão, designadamente a aceitação de alguns princípios e valores considerados sagrados na carta constitucional que deverá unir todos os europeus, a entrada da Turquia, que se tem esforçado por transformar a sua realidade política, económica e social, representará uma nova oportunidade mas também um enorme desafio para a U.E. e para o seu projecto.
Quinta-feira, Outubro 07, 2004
As nuvens são sombrias...
As nuvens são sombrias
Mas, nos lados do sul,
Um bocado do céu
É tristemente azul.
Assim, no pensamento,
Sem haver solução,
Há um bocado que lembra
Que existe o coração.
E esse bocado é que é
A verdade que está
A ser beleza eterna
Para além do que há.
Fernando Pessoa, 5-4-1931
Terça-feira, Outubro 05, 2004
A adesão da Turquia à U.E.
EXP. — Há quem diga que, quando a Turquia for membro da UE, mudará a sua natureza; que vai ser preciso decidir onde termina a Europa — é um argumento geográfico. E há ainda argumentos culturais, religiosos e demográficos.
A.D. — Argumento geográfico: a Turquia possui uma terra europeia. Onde termina a Europa? Em Istambul. Essa parte da Turquia é maior do que alguns Estados-membros. Se o argumento é geográfico, como explica Chipre? Cultura: somos mais próximos dos gregos do que estes dos noruegueses, por exemplo. Se ignorarmos os arquivos turcos otomanos, não poderemos escrever a história da Europa.Temos uma história comum.
Religião: somos muçulmanos e continuaremos a sê-lo. Mas ao longo da História, as diferenças entre a Igreja Ortodoxa, Católica ou Protestante eram menores do que as diferenças entre muçulmanos e cristãos? Somos todos de tradição abraâmica. Demografia: segundo as últimas estimativas, daqui a dez anos a UE, com a Turquia incluída, terá cerca de 6oo milhões de habitantes. Desses, 80 milhões serão turcos — 10%. Quem pensa que uma minoria de 10% pode alterar a natureza da Europa não está disposto a ser multicultural. Por que é que 10% metem tanto medo?
[Expresso - 2 de Outubro de 2004]



